25 de maio de 2013

Elói de Pruystinck e a Inversão de São Paulo

por Breno Lucano

Estamos no século XVI. Os partidários do Livre Espírito  dão seus últimos suspiros com Elói de Pruystinck, que lê são Paulo a seu modo. Todos conhecem a famosa sentença "não fazer aos outros o que não quer que os outros o façam". Essa moral negativa necessitava de uma inversão, de vivacidade nova, construindo um imperativo categórico hedonista: fazer ao outro aquilo que esperamos que ele nos faça. Revolução radical!

Aqui se encontra a nobreza da idéia, pois que cada um quer fruir e nunca sofrer. De tal modo que, fazendo ao outro o que se espera para si, faz-se fruição e evitação da dor. Elói constrói dessa forma uma autêntica ética do júbilo.

24 de maio de 2013

Aristipo e a Extravagância da Virtude

por Breno Lucano


"... nada impede que um homem viva extravagantemente e bem.
Aristipo (DL, II: 69)

Aristipo, filósofo hedonista, filósofo emblemático, portanto. Isso porque incorremos no lugar-comum de que não se pode ser filósofo e hedonista ao mesmo tempo, nada de filosofar e se adentrar em bordéis, participar de banquetes, festas e sensualismo. A filosofia, dizem, não se ocupa disso. A ela deve-se mais respeito, mais determinação e menos ousadia. Pelo menos é o que pensam os que entendem a filosofia como algo capaz de conduzir ao infinito, ao eterno, ao absoluto. Aristipo ao lado de grandes nomes como Heráclito, Parmênides ou Aristóteles? Pouco provável. É curioso como no diálogo Filebo Platão nunca menciona o nome de Aristipo, embora dedique a obra inteira à discurssão do prazer. 

Nosso filósofo de Cirene evita os extremos. Isso o faz, diferentemente de Sócrates e dos platônicos, a exigir dinheiro em troca de suas aulas. Primeira subversão! Aristipo não vê o dinheiro como um bem em si - único bem é o prazer -, mas como um meio de descomplicar a vida, de torná-la mais facilitada. Para ele, a riqueza e a pobreza são dois estados que coagem, entravam a liberdade e impossibilitam uma verdadeira autonomia - lembremos que a autonomia é a palavra-chave na Antiguidade. Nem mendigo nem rico é visto como modelo de virtude. Assim, rejeita tanto os farrapos de Diógenes quanto o brocado de Platão. Se o dinheiro realmente nada vale, que, ao menos, sirva para dispersar as contrariedades.

21 de maio de 2013

Lógica dos Vencedores na Filosofia Antiga

No jogo dos contextos, um deles não é o menor: o das implicações ideológias que atraveeesam a história das idéias e opõem uma tradição hedonista a sua familiar inimiga do ideal ascético. De um lado, Leucipo, Demócrito, Aristipo, Diógenes, Epicuro, Lucrécio, Horácio, etc. - aquele que esta obra reúne pela primeira vez as grandes figuras -, do outro, como contemporâneos exatos, Pitágoras, Parmênides, Cleanto, Crisipo, Platão, Marco Aurélio, Sêneca. Atomistas, monistas, abderianos, materialistas, hedonistas contra idealistas, dualistas, eleatas, espiritualistas e defensores da linha ascética. A filosofia, em seu período grego, mas também depois, apresentou constantemente uma dupla fisionomia da qual uma só face é montada, apresentada. Pois, como ganhadores, Platão, os estóicos e o cristianismo impõem suas lógicas: ódio ao mundo terreno, aversão às paixões, às pulsões, aos desejos, desconsideração ao corpo, ao prazer, aos sentidos, culto às forças noturnas, às pulsões de morte. Difícil pedir aos vencedores que escrevam objetivamente a história dos vencidos...

20 de maio de 2013

Gassendi e o Epicurismo Cristão

por Breno Lucano

O que busca a filosofia de Gassendi? Nada  menos que a felicidade e o prazer. Tendo em razão sua proposta eudemonista, ataca Aristóteles de todas as formas, chegando mesmo a afirmar que sua leitura é profundamente entediante. A mola propulsora do ataque foi o pirronismo. Mas entenda bem: o ceticismo foi o caminho metodológico da obra gassendista, nunca a conclusão.

Aristóteles à parte, a rivalidade principal sempre foi Descartes. Aprofundemos: Descartes, partindo da dúvida, alcança certezas ontológicas, passando pelo cogito, pelas idéias inatas, por Deus, construindo a metafísica moderna. Gassendi, por outro lado, admite que a razão não é o instrumento adequado para o alcance de Deus, já que é limitado e pouco confiável. Ambos são homens de ciência. Creem na observação, na dedução, confederem a física como modelo. Mas Gassendi limita a ciência, entende que ela deve poupar os assuntos religiosos.

19 de maio de 2013

Série Diógenes de Sínope

Diógenes e Felipe

(43) Às pessoas que se deixavam perturbar por sonhos Diógenes falava: "Por tudo que realmente fazeis quando estais despertas não vos atormentais, porém usais toda a vossa perspicácia para entender o que imaginais no sono." Quando o arauto proclamou em Olímpia: "Diôxipos venceu os homens", Diógenes o interrompeu para dizer: "Estes vencem os escravos, e eu venço os homens."

Apesar de tudo os atenienses o amavam. Tanto era assim que quando um rapaz lhe quebrou o tonel os atenienses surraram o rapaz e deram outro tonel a Diógenes. Dionisios, o estóico, afirma que após a batalha de Caironea ele foi detido e levado à presença de Felipe; perguntando-lhe este quem ele era, sua resposta foi: "Um observador de tua ambição insaciável." Por essa resposta Diógenes conquistou a admiração do rei e foi posto em liberdade.

DL, Livro VI


18 de maio de 2013

Marco Aurélio e o Estoicismo

Pintura de Eugene Delacroix intitulada "La Mort de Marc Aurèle", de 1844.
Marco Aurélio tinha naturalmente uma excelente educação. Aluno do orador Frontão, manteve com ele uma longa correspondência, mas foi a filosofia que teve sobre ele a maior influência. Como se viu, os antoninos manifestavam melhores sentimentos que a dinastia precedente em relação aos filósofos, em particular aos estóicos, já que o próprio Adriano chegou a escutar Epicteto. Após o primeiro contato com a filosofia, graças a um de seus mestres, que lhe proporcionara desde a infância um certo gosto pela austeridade, foi Júnio Rústico quem revelou o estoicismo a Marco Aurélio, fazendo-o ler as notas de curso de Epicteto - não sabemos se as de Ariano ou as que ele mesmo teria tomado e estariam agora perdidas. Marco Aurélio tinha, aproximadamente, 25 anos e foi definitivamente conquistado pela filosofia estóica. Rústico não era professor de filosofia, Marco Aurélio o engajaria como conselheiro. Ele também acompanhou os cursos de professores de filosofia, principalmente de um certo Apolônio, estóico que Antonino trouxera da Calcedônia a Roma para ministrar lições ao futuro imperador, e que se recusou a ir ao palácio porque entendia que o aluno é que devia ir ao mestre. Quando ele morreu, Marco Aurélio, que então ainda não tinha subido ao trono, ficou profundamente afetado. Com mais idade, já imperador, ele seguiu os cursos de um outro estóico chamado Sexto.

17 de maio de 2013

Gassendi, o Padre Epicurista

por Breno Lucano

Nascido em 1592, ano da morte de Montaigne, Gassendi ainda se chama Gassend. Era comum a italianização do nome segundo o gosto de Maria de Médicis. Seus pais, camponeses de Alpes-de-Haute-Provence, onde passa os anos mais importantes de sua vida, salvo breves períodos em Paris.

Progredindo rápido nos estudos, já aos 16 anos ensina retórica do colégio em Digne, de onde se torna diretor aos 22. Pouco mais tarde torna-se doutor em teologia, o que lhe confere a possibilidade de pregar e ensinar. Assume, finalmente a cátedra de filosofia e teologia em Aix-en-Provence. Por alguns anos ensina Aristóteles, embora sempre de forma heterodoxa: apoia-se na ciência e na experimentação, na verificação dos fatos, partindo do corpo sensual.

Aula sobre Aristóteles? Melhor dizendo: contra Aristóteles. Ataca a escolástica sempre que possível, assim como Descartes por querer provar racionalmente a existência de Deus, quando, para Gassendi, Deus é tão-somente um artigo de fé. Mas nosso filósofo possui outras ocupações, além da filosofia e teologia. Estudioso de anatomia e pratica dissecação; nas horas vagas, tece observações astronômicas.