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Filosofia e História Antiga e Medieval

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Super-Heróis e a Filosofia

O que o mundo colorido dos super-heróis tem em comum com o universo sisudo e complexo da filosofia? Para o pesquisador William Irwin e seus colaboradores, muita coisa. Partindo de histórias conhecidas, como as do Homem-Aranha, Superman e Quarteto Fantástico, um grupo seleto de autores debate as questões filosóficas e de sabedoria que residem ocultas em muitas vezes ingênuas histórias em quadrinhos de heróis fantasiados. Coisas que nós leitores não prestamos a devida atenção em meio aos lugares-comuns desse gênero que já faz parte do imaginário coletivo.

Como em toda coletânea, há artigos melhor acabados, capazes de despertar no leitor questionamentos não apenas sobre o que há escondido por trás dos colantes dos super-heróis, como também sobre como funciona o nosso próprio inconsciente com relação às nossas fantasias ao poder. Nesses momentos, o livro se mostra uma agradável surpresa, levantando questões éticas, morais e sociais embasadas em teorias de filósofos como Sócrates, Platão, Kant e Kierkegaard, entre diversos outros.


Infelizmente, alguns dos textos mais fracos são exatamente os assinados por autores de quadrinhos, como o escrito por Jeph Loeb junto com um dos organizadores da coletânea, Tom Morris. O texto se resume a um apanhado de conselhos moralistas, sem entrar muito fundo nos aspectos filosóficos. Dennis O´Neil, autor do Guia oficial DC Comics: Roteiros, acaba se saindo um pouco melhor, dando um toque de bom humor ao tema. Há também escorregões como o do artigo “Por que os super-heróis devem ser bons?”, que usa a heroína Tempestade (dos X-Men) como exemplo de heroína perfeita, tendo com base a sua unidimensional versão cinematográfica (interpretada pela atriz Halle Berry) em vez de explorar esse aspecto indo direto na fonte real: os quadrinhos. Mas não são deslizes que tornem a leitura um problema. Os acertos e descobertas da grande maioria dos textos é de instigar a curiosidade do leitor.

Um bom exemplo dos ensaios interessantes que compõem o livro é o texto de Tom Morris, intitulado “Deus, o Diabo e Matt Murdock”, em que o autor disseca a fundo os traços de personalidade do alter ego do Demolidor, reconhecendo padrões de comportamento católicos em conflito com a vida que o personagem leva. Partindo de situações coerentes estabelecidas principalmente por Frank Miller e Kevin Smith em diferentes fases, Morris explica como a filosofia católica aparece nos atos de Murdock, um personagem complexo e cheio de angústias e contradições, mas também dotado de uma motivação altruísta sem paralelos.

Outro ponto alto é o texto “O Quarteto Fantástico como família: O maior de todos os laços”, de Chris Ryall e Scott Tipton, em que a relação entre cada um dos membros dessa família é dissecada de forma tão clara que é possível encontrar paralelos com a sua própria família durante a leitura. Além desses, a série de artigos sobre “Super-heróis e o dever moral”, levanta questões éticas muito interessantes: por que os heróis são bons?; se eles realmente devem sê-lo; sua moral e a questão da responsabilidade. Análises estas, feitas sempre se pensando nas questões que fazem parte do nosso cotidiano e não são apenas um exercício de imaginação a respeito de super-seres coloridos. Citações e reflexões sobre Watchmen, O Reino do Amanhã, Cavaleiro das Trevas e Crise nas Infinitas Terras revelam aspectos do heroísmo e da própria existência humana em situações extremas.

O título vem se juntar ao acervo de obras similares lançadas pela editora, que possui vários outros livros com ensaios filosóficos tendo como ponto de partida ícones pop como Harry Potter, Star Wars, Matrix, A Família Soprano e Buffy – A caça-vampiros. Infelizmente, a versão nacional do livro não faz bonito ao promover seu produto. A começar pela capa, que utiliza os personagens da Liga da Justiça da versão animada, não despertando, numa olhada rápida na prateleira, credibilidade aos assuntos discutidos em seu conteúdo. A ilustração é claramente calcada em material promocional da DC, fato não mencionado nos créditos. Iconograficamente o livro também é muito pobre, pois fragmenta a mesma imagem para ilustrar cada capítulo, chegando até mesmo ao cúmulo de publicar a imagem do Super-Homem com o "S" invertido. Sem falar que ilustrar tópicos sobre os heróis da editora Marvel com personagens da DC Comics é, no mínimo, um erro desnecessário.

Também é importante salientar a falta de interesse da tradução em pesquisar um pouco a respeitos dos personagens que compõem o livro. Praticamente todos os quadrinhos citados já foram publicados no Brasil, mas estão todos citados em inglês (inclusive as referências bibliográficas remetem apenas às edições americanas), o que pode dificultar o entendimento de quem não é familiarizado com os últimos 20 anos de HQs de heróis publicadas no Brasil. Não bastasse isso, quando se arrisca, a tradução não poderia ser mais equivocada. O extraterrestre conhecido por nós como o Vigia, foi rebatizado de Observador (nome que só teve na primeira dublagem brasileira dos desenhos desanimados da Marvel) e a Fortaleza da Solidão do Super-Homem virou Fortaleza da Solitude. Fora os escorregões feios, como rebatizar a simpática tia May (do Homem-Aranha), de tia Mary. Ou seja, o livro merecia um tratamento mais cuidadoso e alguma consultoria.

Mas se ignorarmos esses deslizes, encontraremos um material muito proveitoso. Afinal, em muitos casos, a análise supera em muito as intenções originais dos autores dos quadrinhos. Ou seja, ao analisarem as implicações filosóficas, os pensadores reunidos no livro descobrem nuances talvez nunca imaginadas pelos próprios roteiristas, o que demonstra a riqueza e coerência de muitas criações. Após a leitura, termos como teísmo, utilitarismo e existencialismo podem ficar tão familiares quanto kriptonita, multiverso e raios cósmicos.

Em suma, o livro é uma leitura altamente recomendada não só aos curiosos, mas também aos roteiristas que produzem HQs de qualquer gênero, graças à reflexão séria proposta a respeito dos motivos que levam esses personagens a sobreviverem por tantas décadas. Caso a esmagadora maioria de roteiristas medíocres que teimam em queimar personagens de grande potencial em batalhas fúteis parasse para entender as complexas questões que povoam as entrelinhas (ou entre-quadros) dos quadrinhos dos vigilantes mascarados, certamente o leitor ganharia bastante ao encontrar nas bancas quadrinhos que realmente unem arte, entretenimento e (por que não?) questionamento.


Extraído de Omelete, em 24/11/09




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Boécio - Consolação da Filosofia

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Stoics: Internacional Stoic Forum

Aos leitores que possuem conta no Yahoo!, uma boa opção é o cadastro em seus grupos. Destaco o Stoics: Internacional Stoic Forum, um espaço onde estudiosos e curiosos da Stoá discutem as teorias de Zenão-Crisipo. Infelizmente, o fórum é americano, o que faz com que todas as mensagens encaminhadas para os e-mails dos membros sejam em inglês. De qualquer forma, vale conhecer.

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O Sócrates de Xenofonte e Aristófanes

Sócrates de Xenofonte

Das obras de Xenofonte sobre Sócrates, a mais importante é a Apologia de Sócrates, inserida nos Memoráveis, escrita, segundo o autor, para provar que Sócrates foi um cidadão altamente patriota, piedoso, justo, que fazia sacrifícios aos deuses e era leal aos amigos. A honradez de Sócrates é o que interessa a Xenofonte, para combater os que condenaram injustamente o filósofo. Para isso, o autor conta episódios da vida de Sócrates que confirmam tal imagem, ao mesmo tempo que afirma que a preocupação central do filósofo era com a ética, isto é, com a virtude identificada ao saber (só o ignorante é vicioso), com a utilidade do bem (o bem é a justiça) e com o domínio de si.

É de Xenofonte a imagem de Sócrates discutindo na agorá e nas ruas, perguntando aos passantes o que é a virtude, o que é a justiça, o que é o bem, deixando-os enfurecidos e desesperados à medida que refuta cada uma das respostas que lhe oferecem, provando que são ignorantes e, pior, nem sabem que o são.



O Sócrates de Aristófanes

De Aristófanes, o grande autor de comédias do século de Péricles, a obra que se refere mais diretamente a Sócrates é a comédia As Nuvens, na qual o filósofo é apresentado e ridicularizado como sofista.

Suspenso num cesto, entre as nuvens, Sócrates dá consultas. Entrepsíades vem consultá-lo para saber qual argumento é o mais injusto para que possa usá-lo contra alguns credores. Sócrates põe-se a falar numa linguagem incompreensível, zomba dos deuses e se propõe a iniciar o consulente nos mistérios da cosmologia. Enfurecido, Estrepsíades se vai, mas seu filho fica e torna-se discípulo de Sócrates. O pai, encolerizado, dá uma boa surra no filho e volta à procura de Sócrates, incendiando o cesto onde este se encontra.

Evidentemente, não podemos tomar Aristófanes como testemunho da filosofia socrática. Mas ele revela algo precioso: como os atenienses viam Sócrates e como, rindo da comédia, deixavam escapar a irritação que lhes causava.



CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia: dos Pré-Socráticos a Aristóteles. - 2 ed., rev. e ampl. - São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 183

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Avicena: O Ser Possível e o Ser Necessário

Dentre a imensa produção do filósofo persa, que vai da medicina à lógica, da física à música e às doutrinas esotéricas da religião, abordaremos somente as teses que foram acolhidas e repensadas no século XIII por Tomás de Aquino, João Duns Escoto e tantos outros, passando a integrar o movimento que ficou conhecido como avicentismo latino.

Antes de mais nada, deve-se destacar a distinção entre ente e essência, o primeiro concreto e a segunda abstrata. Os homens, por exemplo, constituem o ente, ao passo que a humanidade constitui a essência. Os primeiros existem de fato, mas a segunda prescinde a existência, pois representa a definição ou a quid est, que em si mesma, não denonta a existência nem a não-existência, a necessidade ou a contingência: "Equinitas est tantum equinitas", ou seja, a "cavalidade" é tal e isso basta, escrevia Avicena. Portanto, uma coisa é a essência e a outra existência. E a primeira, em si mesma, não denota a segunda.

Ademais, no que se refere ao ente real, é preciso distinguir entre o ser necessário e o ser possível. Aquilo que existe de fato, mas que, em si mesmo, poderia também não existir é chamado por Avicena de ente possível: trata-se do ser que não tem em si mesmo a razão de sua própria existência, encontrando-a em uma causa que o fez ser. Diferente do ser possível é aquele ser que existe de fato e de direito ou ser necessário, isto é, o ser que não pode deixar de ser, porque posslui em si mesmo a razão do seu existir. Essa distinção é fundamental, porque separa o mundo de Deus: um é apenas possível, pois sua existência atual é contingente, não postulada por sua essência, ao passo que o outro é necessário; o primeiro é dependente, o segundo é independente. Escreve Avicena: "O ser necessário é apenas um, assumindo o grau de primeiro princípio e causa primária. (...) É evidente que o ser necessário é numericamente um e está claro que tudo aquilo que se encontra fora de sua essência, considerado em si mesmo, é apenas um possível em relação à sua existência, sendo por isso um causado. Essa é a razão pela qual, na cadeia das coisas causadas, chega-se ao ente necessário."



REALE, Giovanni & ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média.São Paulo: Paulus, 1990. p. 553-554


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Teles

Professor de filosofia ligado à escola cínica, em meados do século III a.C. Sete extratos de suas diatribes, tirados do epítome de um certo Teodoro, foram preservados por Estobeu. Esses são os vestígios mais antigos sobreviventes da diatribe cínicos-estóicos. Teles menciona vários filósofos cínicos: Diógenes, Crates, Metrocles, Estilpon e o seu modelo favorito, Bion de Borístenes.


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Frei Tito - Linha Direta

Documentário do Linha Direta: Justiça sobre a repressão da ditadura militar no Brasil e o martírio do frade dominicano Tito de Alencar. Em quatro partes.
















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Aristóteles no Planalto

O que pensaria o célebre filósofo grego da Antigüidade diante do sistema político do Brasil contemporâneo? Reconheceria nele as idéias igualitárias da democracia ateniense?


por Edison Nunes


Não sei se foi por antiga magia ou tecnologia secreta que Aristóteles veio a dar em Brasília. Queria conhecer nossa Constituição, dizendo ser hábito seu empedernido. Encontrei-o por azar; expliquei lhe o básico, alguma bibliografia. E recolhi alguns de seus comentários.

Para ele o nosso sistema político não poderia ser chamado de “democracia” e, de fato, não o é, tecnicamente falando. A palavra designa somente regimes nos quais o povo detém o poder soberano; exercendo-o diretamente em assembléia, sem que tal poder conheça qualquer limite ou contrapeso institucional. Significa literalmente o “poder popular” e sua realização pressupõe a maior igualdade possível de todos perante a lei (isonomia) e quanto ao direito de participar da decisões públicas mediante a fala (isegoria). Tal igualdade fundamental torna impossível a representação política já que esta pressupõe a separação prática e formal entre representantes e representados, entre dirigentes e dirigidos. Assim, qualquer processo de escolha de magistrados, como votação ou concurso de provas e títulos, não é democrática pois toma os indivíduos pelas suas diferenças, ranqueando-os em melhores e piores. Por isso mesmo, a eleição popular de um presidente ou deputado; a de um juiz concursado, configurar-se-iam aristocráticas (de aristói – os melhores). O único método realmente democrático de seleção, quando não se pode decidir diretamente em assembléia, é o sorteio. Só aí não há discriminação de mérito, preservando-se a igualdade.

O governo que aqui se vê é uma mescla de oligarquia e democracia, o tipo mais comum de governo constitucional. Não existe nenhum poder ilimitado que subordine os demais; cada qual com sua autonomia e composição definidas pela Constituição. Compõem aristocracias o Judiciário e o Legislativo, selecionados seus membros entre os melhores do povo. O Executivo, ainda que por tempo limitado, encarna o princípio da realeza. O único componente realmente democrático do sistema encontra-se nas assembléias periódicas que elegem os magistrados (colégios eleitorais). A este governo misto, Aristóteles chamou de “politia” cuja tradução, pelo latim, é “república”.

Contudo, o que mais espantou Aristóteles é o estranho hábito que temos de garantir direitos políticos aos escravos. Calma, prezado leitor: custou-me também entender! É escravo por natureza aquele que não quis ou não pode desenvolver o hábito da escolha prudente, tornando-se assim incapaz de prever. Tal indivíduo necessita da direção de outrem não apenas na política como principalmente no trabalho, estabelecendo um laço de benefício mútuo com seu senhor: este planeja e organiza; aquele provê com sua energia. Note que não é o vínculo jurídico a caracterizar a escravidão, mas sua função: fica evidente que o assalariamento é uma espécie de escravidão por tempo! A questão que mais o perturbou foi a da qualidade da escolha de quem é desabituado dela até na direção de sua vida privada.

Depois de explicar-lhes os mecanismos de seleção de elites de nossa república; das diatribes de nossos sofistas (os marqueteiros); dos movimentos de nossos socialmente poderosos, tudo conspirando para a escolha responsável e melhor, entendeu que eu lhe fazia troça e foi à biblioteca ler nossa história política.



Edison Nunes é professor do Departamento de Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.



Artigo publicado na revista História Viva, ed. 58 - Agos/2008


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Gregório de Nazianzo: Deus é o Ser Infinito

Por Sávio Laet de Barros Campos.
Bacharel-Licenciado em Filosofia Pela
Universidade Federal de Mato Grosso.


1.1) A Incognoscibilidade da Essência Divina

Platão afirma no Timeu, que é difícil conhecer a Deus e impossível enunciá-lo por palavras. Ora, Gregório inverte a ordem: é impossível enunciar algo sobre Ele, e mais impossível ainda conhecê-lo.1


1.2) A Existência de Deus nos é Cognoscível

Contudo, Gregório não é um agnóstico. Com efeito, o que desconhecemos de Deus é a sua essência. De fato, a existência de Deus permanece cognoscível aos homens: “Antes de mais nada, não é a existência de Deus que é incognoscível, mas tão somente a sua natureza e essência.”2


1.3) Razão e “Vantagens” da Incognoscibilidade de Deus

Agora bem, a razão pela qual não podemos conhecer, positivamente, a essência divina é clara: Deus é puramente espiritual3 e nós – mesmo tendo uma alma espiritual – estamos presos às coisas sensíveis por nosso corpo. Destarte, por mais que nos desprendamos das coisas corporais, por mais que nos apliquemos às espirituais, nossos conceitos estarão sempre presos de algum modo ao dado sensível. Desta sorte, justamente devido ao fato de não sermos seres puramente espirituais, é que não podemos – mesmo tendo algum parentesco com os seres puramente espirituais pela nossa alma – alcançá-los em sua essência4.

De resto, a nossa impossibilidade de conhecermos a Deus de forma clara e distinta, acaba se revertendo em nosso próprio benefício. Sem embargo, todo conhecimento – precisamente enquanto se apresenta como mais difícil de se conquistar – é sempre também mais ardentemente desejado e buscado. Desta feita, o fato de crermos em Deus sem porém conhecê-lo – além de nos incitar a mais a buscá-lo – supõe uma imensurável recompensa no além, que é quando enfim o conheceremos mais perfeitamente:

"Aliás, este obstáculo (o de conhecer a Deus) não deixa de ter suas vantagens, pois, quanto mais difícil se nos afigura algum saber, tanto mais apreço lhe votamos; pois não costumamos estimar o que apreendemos com facilidade. (...) E, enfim, o nosso empenho pelo conhecimento não deixará de ter sua justa recompensa no além." 5



Como diz o ditado, ninguém salta por cima de sua sombra. Como o olho precisa de luz e ar para ver, e como o peixe precisa da água para poder nadar, assim também os homens não podem chegar a Deus, senão por meio das suas criaturas.6 Ora bem, a incognoscibilidade para Gregório não é sinônimo de agnosticismo. Destarte, Deus é incognoscível por não podermos alcançar um conceito puramente espiritual dEle7, mas isto não nos impede de conhecer a sua existência.


1.4) As Provas da Existência de Deus

De fato, com um simples olhar para a criação, podemos perceber que ela não encontra em si a razão da sua existência.8 Quem é então o autor de tamanha ordem e harmonia que impera no universo? Como explicar a reunião de tantos elementos, que possibilitam esta harmonia de que gozam as coisas criadas? Donde provém este Logos, que rege por suas leis todas as coisas, e pelo qual elas não caem, antes se conservam, numa unidade e beleza admiráveis? Será, pois, o universo obra do acaso? Se admitirmos que sim, como podemos ainda explicar que o acaso, além de criar tal ordem, a mantém e sustenta?9 Ora, é evidente que não podemos retroceder assim indefinidamente, atribuindo tudo ao acaso; pelo que devemos admitir a existência de um soberano governador do universo, o qual chamamos de Deus.10 Daí que por meio da lei e da ordem – entranhadas na natureza das coisas – chegamos com certeza a conhecer a existência de Deus:

"Desta forma o Logos, ou a lei da natureza, que tudo penetra e domina, e que foi criada conosco mesmos, nos faz chegar a Deus a partir das coisas sensíveis." 11


Entretanto, este argumento –não tarda em esclarecer Gregório – não nos fornece nenhum conhecimento da essência divina: “Gregório não deixa de acrescentar que este argumento não nos permite saber o que seja a essência concreta de Deus.”12


1.5) O Conhecimento Negativo da Essência Divina

No entanto, se não podemos conhecer o que Deus é, podemos saber ao menos o que Ele não é. De modo que, cumpre dizer que Deus não é um corpo. De fato, os seus atributos mais essenciais nos atestam isto: sua imensidade, sua infinitude, seu caráter inatingível e sua invisibilidade, repugnam qualquer pretensão a atribuir-lhe alguma propriedade corporal.13

Ademais, onde há matéria, há composição; onde há composição, há luta; e onde há luta, há dissolução. Ora, a dissolução é incompatível a Deus. De maneira que Deus não poder ser um corpo.14

Importa notar ainda, que Deus está em todo lugar, e esta afirmação também nos basta para provar a sua imaterialidade.15 De forma que, a menos que concebamos que Deus se misture às coisas corpóreas – tal como a água ao vinho – numa espécie de fragmentação de sua substância – o que seria de todo um absurdo – não poderemos afirmar, deveras, que Deus esteja em todo lugar e ao mesmo tempo, e ainda sim seja um corpo.16 Além disso, se Deus fosse um corpo que preenchesse todo o universo, não haveria lugar para as outras coisas.17

No entanto, surge a questão, se seria legítimo atribuir a Deus um corpo sutil, tal como dizem os peripatéticos ser o quinto elemento, dotado de movimento circular. Ora, Gregório elimina esta possibilidade, a partir do próprio conceito de movimento tomado de Aristóteles. Com efeito, supondo que exista uma substância quase incorporal que se movimente como as outras coisas, esta substância teria que derivar o seu movimento de uma outra substância que, por sua vez, seria ou não incorporal e assim retrocederíamos ao infinito, o que é impossível. Daí que, “Na opinião de Gregório o movimento corporal se reduz, forçosamente, a algo incorporal.”18


1.5.1) Nossos Conceitos Acerca de Deus não nos Dizem o que Ele é

Doravante, nenhum conceito que formamos a partir das coisas sensíveis, nos patenteia o que Deus é, mas tão-somente o que Ele não é. O fato de dizermos que Deus seja incorpóreo, não-gerado, eterno19, luz, sabedoria, justiça, razão e intelecto20, nada nos diz a respeito de sua essência que permanece velada. De fato, quem de nós é capaz de compreender um espírito sem movimento e absolutamente despojado de matéria? Como podemos imaginar uma luz que não se misture com o ar?

Sem embargo, ninguém pode imaginar o que seja um fogo sem matéria, desligado, pois, de toda corporeidade! Nem a razão de Deus é da mesma ordem daquela que existe no homem. A nossa noção de justiça, sabedoria e inteligência, também não estão totalmente despidas de imagens corpóreas. Donde, por elas, não podermos chegar a conhecer a Deus em si próprio, que é puro espírito:

"O propósito de Gregório é dar a entender, em termos retóricos, que os conceitos aplicados a Deus são produtos humanos, e por isso inadequados. Todos incluem um elemento corporal, pois não nos é possível abstrair totalmente da sensibilidade. Nestas condições, como poderíamos conceber e enunciar com palavras a espiritualidade pura de Deus?" 21



1.6) A Via Mística

Ao que tudo indica, Gregório não chegou a formular, ao menos explicitamente, o conceito de analogia. Entretanto, os seus textos nos fazem pensar que ele não ignorasse de todo tal conceito. Com efeito, o Deus de Gregório habita em luz inacessível, nem mesmo os bem-aventurados o apreendem exaustivamente. Por conseguinte, ao mesmo tempo em que está presente no mundo, o transcende. Embora seja a suma beleza, excede também a toda beleza. Deus ilumina o espírito, mas este – na mesma medida em que O conhece – O desconhece. Trata-se, na verdade, de uma dialética do amor, pois quanto mais O conhece, mais deseja conhecê-lo, ao mesmo tempo em que se reconhece, que ainda se não chegou a conhecê-lo verdadeiramente:

"Gregório, ao que parece, não chegou a elaborar o conceito de analogia, embora não o desconheça de todo, como se pode concluir de certas passagens, onde se lê que nem mesmo os espíritos bem-aventurados logram apreender a Deus, posto que Ele habita numa luz inacessível. Claro está que Deus está presente no mundo, mas ao mesmo tempo Ele o transcende; Deus é toda a beleza, mas não obstante Ele excede toda a beleza; Deus ilumina o espírito, mas por mais célebre e alcandorado que seja o vôo da mente, ela é incapaz de alcançar a Deus, pois Ele se subtrai a nós na mesma medida em que O compreendemos; e assim, numa espécie de jogo amoroso, Deus atrai a si aqueles que O amam." 22



1.7) Aparente Aporia: Deus é o Próprio Ser

Uma aparente aporia surge na filosofia do nazianzeno, a saber, ele parece nomear Deus positivamente, quando o chama de ser.23 De fato, Deus é o próprio ser e este ensinamento, colhemos da revelação que o próprio Deus fez a Moisés. Quando este lhe perguntou o seu nome, Ele lhe respondeu então: Eu sou aquele que é. Destarte, como Aquele que compreende em si a plenitude do ser, Deus não tem princípio e nem fim. Ele é, por conseguinte, imensurável e ilimitado em sua própria substância. Porquanto Deus é o próprio ser, sem nenhuma determinação, Ele é infinito:


"Deus é o ser infinito; por isso, ao perguntar-Lhe Moisés pelo nome, Ele respondeu, simplesmente: Eu sou aquele que é. De fato, Deus compreende em si a plenitude do ser, e por esta razão carece de princípio e de fim; antes, Deus é o seu próprio ser: um oceano imensurável e ilimitado de substância." 24


Finalmente, da imensidade de Deus compreendemos que Ele excede todo o espaço e todo o tempo. Ele excede o todo espaço por ser incorpóreo e excede todo o tempo porque não foi e nem será, mas é e possui todo o seu ser no presente. Deus é eterno:

"Não se pode dizer que foi ou há de ser, mas apenas que é, e que nele se compreende todo o ser no presente; numa palavra: Deus é eterno." 25


Notas:

1 Philotheus Boehner. História da Filosofia Cristã. p. 81: “Platão afirma no Timeu que é difícil conhecer a Deus, e impossível exprimi-lo por palavras. Gregório prefere antepor a inefabilidade à incognoscibilidade: é impossível enunciar a Deus por palavras, e mais ainda é conhecê-lo.”

2 Idem. Op. Cit.

3 Idem. Op. Cit: “Não possuímos um conhecimento distinto e positivo da essência divina, visto ser ela puramente espiritual.”

4 Idem. Op. Cit: “(...) por mais que nos concentremos sobre nós mesmos e por grande que seja o nosso desprendimento das coisas sensíveis, os nossos conceitos sempre incluirão algum elemento corporal; e isto nos proíbe o acesso às realidades puramente espirituais e à Divindade, a despeito dos laços de parentesco que a ela nos prendem.”

5 Idem. Op. Cit. (O parêntese é nosso).

6 Idem. Op. Cit: “(...) como o olho necessita de luz e ar para apreender as coisas externas, e como o peixe precisa da água para poder nadar, assim também nós não podemos chegar a Deus senão através das coisas corporais e sensíveis.”

7 Idem. Op. Cit. p.82: “Portanto, dizer que Deus é incognoscível equivale a admitir a nossa incapacidade de formar quaisquer conceitos puramente espirituais acerca dele (...)”.

8 Idem. Op. Cit: “Um simples olhar para a criação nos convencerá de que não é nela
mesma, e sim em algo transcendente, que devemos buscar-lhe a razão de ser.”

9 Idem. Op. Cit: “Suponhamos, com efeito, que as coisas sejam um produto do acaso. (...) Tal hipótese, porém, não suprime a questão de sabermos quem conversa e mantém aquela ordem.”

10 Idem. Op. Cit: “E’ óbvio que não se pode apelar indefinidamente ao acaso, e que é mister atribuir a conservação da ordem do universo à influência de Deus.”

11 Idem. Op. Cit.

12 Idem. Ibidem. p. 83.

13 Idem. Op. Cit: “Com efeito, Deus é imenso, infinito e sem figura, intangível e invisível. Numa palavra, os seus atributos são diametralmente opostos às propriedades corporais.”

14 Idem. Op. Cit: “A dissolução, porém, é indubitavelmente estranha a Deus. Donde se conclui que Deus não é um corpo.”

15 Idem. Op. Cit: “Deus está presente em todo o mundo, e por conseguinte é incorporal.”

16 Idem. Op. Cit: “A não ser que lhe atribuíssemos a capacidade de confundir-se com os outros corpos e de coexistir lado a lado com eles, numa espécie de mistura, comparável à que resulta da água com o vinho. Ma, nesta suposição Ele se encontraria inteiramente fragmentado, pois cada partícula de sua substância teria que insinuar-se entre duas partículas de outra substância (...)”. (O itálico é nosso).

17 Idem. Op. Cit: “Fosse Ele um corpo a preencher o vazio do universo, já não haveria espaço para as demais coisas.”

18 Idem. Op. Cit.

19 Idem. Op. Cit. p. 84: “(...) o fato de qualificarmos a Deus de incorporal não nos proporciona a menor informação a respeito de sua essência. Como a incoporeidade, assim também o não ser-gerado, a carência de começo ou de fim são conceitos negativos.” (O itálico é nosso).

20 Idem. Op. Cit: “Também os conceitos de espírito, de fogo, de luz, de sabedoria, de justiça, de razão e de intelecto nada nos dizem da essência divina.” (O itálico é nosso).

21 Idem. Op. Cit.

22 Idem. Op. Cit.

23 Se nos dermos conta, veremos que esta aporia é realmente apenas aparente. Com efeito, Deus é o ser, mas esta afirmação indica apenas a sua mais completa incompreensibilidade ao espírito humano. De fato, este só apreende o ser enquanto determinado, e não o ser enquanto tal, sem nenhuma determinação. Ora, Deus é o ser infinito, isto é, o ser enquanto tal, sem nenhuma determinação ulterior. Portanto, não pode ser compreendido por um espírito finito.

24 Idem. Op. Cit. p. 85

25 Idem. Op. Cit.


BIBLIOGRAFIA

PHILOTHEUS BOEHNER, Etienne Gilson. História da Filosofia Cristã, Desde as Origens até Nicolau de Cusa. 7ºed. Trad. Raimundo Vier. Rio de Janeiro: VOZES, 2000. p. 80 a 86.


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Da Interrogação Socrática à Fundamentação da Ciência em Aristóteles

Por Maria Eduarda Martins de Oliveira


De que maneira os pilares da Filosofia Ocidental, cada um ao seu modo, se aproximaram daquilo que talvez seja o centro da disciplina: o conhecimento




Quando buscamos os fundamentos da filosofia ocidental, três filósofos ocupam o lugar mais elevado: Sócrates, Platão e Aristóteles. Dificilmente poderíamos estabelecer alguma hierarquia de valor entre eles, afirmar qual deles é maior ou teve maior relevância para nós. O que parece claro é que, tendo vivido em épocas bastante próximas, cada qual galgou degraus a partir do caminho aberto pelo anterior. Assim, Sócrates teria sido um precursor, apontando paisagens até então desconhecidas no horizonte filosófico. Platão, considerado seu discípulo, bem viu as indicações do mestre e foi além. Aristóteles, aluno por mais de vinte anos na escola fundada por Platão, a Academia, afasta-se do mestre e trilha seus próprios caminhos. Não há como mostrar em poucas linhas todos os pontos centrais nestes filósofos, e menos ainda precisar as diferenças entre eles. No entanto, é possível, se escolhermos um ponto de vista determinado, observar as diferenças de enfoque propostas por cada um deles. Aqui, vamos observar como cada um se aproximou daquilo que talvez seja o centro da Filosofia: o conhecimento. Vamos ver de que modo cada filósofo procura dar conta da possibilidade de ciência (epistéme).

A figura emblemática da Filosofia é, sem dúvida, Sócrates. Torna-se o signo marcante da divisão do mundo filosófico em eras: pré e pós Sócrates. Antes dele não havia, então, Filosofia? Sem dúvida que sim. Tudo parece ter começado com Tales, tido como um dos sete sábios da Grécia. Vieram outros tantos: Anaximandro, Heráclito, Parmênides, Empédocles, Anaxágoras... E, contudo, Sócrates é o grande marco: seus precursores ganharam o rótulo de pré-socráticos, e o mundo ocidental nunca mais seria o mesmo depois de sua vinda. Mas que teria ele feito para ganhar tamanho destaque? Quem foi, afinal, Sócrates?

Dizer quem foi exatamente Sócrates talvez não seja possível. Estima-se que tenha nascido por volta de 470 a.C. e morrido em 399 a.C., condenado à morte pelos juízes de Atenas, mas como não deixou obras escritas, tudo que sabemos a seu respeito tem origem nos trabalhos de outros. Como fontes principais, temos as “apologias de Sócrates”, um gênero literário bastante em voga na época, escritas por admiradores e seguidores de Sócrates. Há, porém, um importante comediógrafo contemporâneo de Sócrates, Aristófanes, que nos deixou em sua peça As nuvens um retrato bastante irônico de Sócrates, onde este é apresentado de maneira ridícula e é equiparado aos sofistas. Sócrates é figura controversa em Atenas: amado por uns, por discípulos e amigos fiéis que o seguem até a morte, mas odiado por muitos, a tal ponto de ser condenado à morte.

Comecemos pelo Sócrates que aparece em As nuvens, comédia apresentada em 423 a.C., mais de 20 anos antes de sua morte. O Sócrates apresentado ali é um físico, voltado a indagações sobre a natureza, como, por exemplo, quantas vezes uma pulga salta o tamanho de seus próprios pés. E é também um sofista, alguém que ensina a transformar um discurso fraco em forte, de modo a ganhar qualquer causa num tribunal, ou seja, alguém muito pouco preocupado com a verdade e a justiça. Nada tão distante do Sócrates oferecido por Platão, inimigo dos sofistas e amante da verdade! Entretanto, talvez haja aí algo historicamente plausível, pois uma boa comédia deveria ter, dentro dos padrões da poesia grega, uma certa verossimilhança. Os gregos, afinal, não tinham a nossa noção de ficção, mas operavam com o conceito de mímesis, de imitação. O que talvez possamos supor é que, ao menos para os olhos do povo, Sócrates era um filósofo da natureza, tal qual seus antecessores “pré-socráticos” e, além disso, era tido como um sofista, um homem empenhado nos debates.

Se levarmos isso em conta, fica mais fácil entender o processo e o julgamento de Sócrates. Vejamos como se passam as coisas na obra de Platão, a Apologia de Sócrates. Quem se encarrega da defesa é o próprio Sócrates, apresentando-se não como um grande orador, mas como alguém que diz o justo, o verdadeiro. Ao caracterizar seus adversários, reconhece dois tipos: os mais antigos – numa clara alusão a Aristófanes – e os mais jovens. Seus primeiros adversários seriam, assim, todos aqueles que compactuam com uma mentalidade profundamente arraigada na cidade, para quem Sócrates seria acusado de “investigar indevidamente o que se passa embaixo da terra e no céu, deixar bons os argumentos ruins, e induzir os outros a fazerem o mesmo”. Ora, nada mais falso, alega Sócrates, afirmando não ter jamais procurado ensinar alguém, nem ter recebido dinheiro em pagamento – ao contrário dos sofistas, que cobram para ensinar. Por que, então, as calúnias? Aqui vem o trecho mais famoso, e por onde Sócrates tornou- se imortal: se os sofistas são grandes sábios, portadores de um conhecimento sobre-humano, Sócrates nada mais é que homem, mas, dentre estes, é portador da mais alta sabedoria, da única propriamente humana. Que sabedoria é esta?

Sócrates conta que seu amigo de infância Querefonte consultou certa vez o oráculo de Delfos para saber se haveria alguém mais sábio do que Sócrates. Não há, é a resposta da divindade. Ora, Sócrates não podia atinar com o significado destas palavras, pois não se considerava sábio. No entanto, não é da natureza divina mentir; que significaria, então? Começou a buscar incessantemente um homem que fosse considerado sábio. Primeiro interrogou um político, mas percebeu que este se considerava sábio sem, de fato, sê-lo. Procurou demonstrar ao seu interlocutor que ele não era realmente sábio, mas foi em vão, o homem mantinha- se seguro de sua sabedoria. Tudo que Sócrates obteve foi o ódio por parte desse político. Tirou, porém, para si, um resultado: percebeu ser mais sábio que o homem, pois, se aquele acreditava saber, ele ao menos, sabia não saber.

E assim foi repetindo o processo com outros políticos, depois com outros homens considerados sábios pela cidade, os poetas. Percebeu que não era por possuírem sabedoria que faziam seus poemas, mas por inspiração; tal como os adivinhos, dizem coisas belas, mas não sabem o que dizem. Passou, então, para a classe dos artesãos, que ao menos tinham um conhecimento sobre sua arte. Estes, porém, assim como os anteriores, julgavam que, por terem conhecimento acerca de sua profissão, também saberiam sobre outros assuntos. Todos, enfim, julgavamse sábios e não reconheciam não saber. Ora, o que é preferível: saber que nada sabe ou enganar-se achando saber aquilo que não sabe? Sócrates opta por sua sabedoria e reconhece-se sábio: sabe que não sabe. Põe-se, a partir daí, numa verdadeira missão a serviço da divindade. É sua tarefa examinar qualquer pessoa que pareça sábia e mostrar-lhe sua ignorância. Eis como Sócrates angariou o ódio da cidade em geral e preparou o caminho para sua execução.




A ciência deve procurar reconhecer a “qüididade”, isto é, a definição de todos os seres, investigar o que faz com que “um isto” seja isto e não aquilo




A Apologia de Sócrates não termina aqui. Sua defesa continua, agora, dirigindo- se aos mais jovens, que o acusaram de corromper os moços e de não acreditar nos deuses da cidade. Sócrates não se arrepende de seus atos e explica por quê. Sempre praticou a justiça, apesar dos perigos de morte que corria, pois seus inimigos certamente acabariam por levá-lo a um processo fatal. Um homem não deve pesar as possibilidades de vida ou de morte, mas pesar se age com justiça ou não. Quanto à morte, não temos elementos para decidir se será um bem ou um mal. Só nos cabe julgar nossos próprios atos. “Temer a morte é o mesmo que supor-se sábio quem não o é, porque é supor que sabe o que não sabe. Ninguém sabe o que é a morte, nem se, porventura, será para o homem o maior dos bens; todos a temem, como se soubessem ser ela o maior dos males.(...) Sei, porém, que é mau e vergonhoso praticar o mal, desobedecer a um melhor do que eu, seja deus, seja homem; por isso, na alternativa com males que conheço como tais, jamais fugirei de medo do que não sei se será um bem. (29a)”. É essa integridade de Sócrates que acabará por condená-lo à morte. Não pode aceitar uma absolvição que exija o abandono de sua tarefa. Não poderá viver se não for perambulando pela cidade, fazendo perguntas e persuadindo todos a se preocupar não com as riquezas, mas com o aperfeiçoamento da alma. Sua condenação é um mal, não para ele, mas para a cidade, ingrata com uma dádiva da divindade.



Para Aristóteles, há formas universais existentes nas coisas. Com o pensamento fazemos generalizações e apreendemos algo universal nos vários objetos corporais




Mas a fama de Sócrates não vem apenas da lendária frase “Só sei que nada sei”. Ele é também a principal personagem da maioria dos diálogos de Platão. Em sua juventude, Platão escreveu vários diálogos que apresentam este Sócrates interrogador. Conversando com as mais variadas figuras de Atenas, ora um general, ora um sofista, ora um poeta, Sócrates vai sempre interrogando, buscando responder à pergunta socrática: “O que é?”, por exemplo, no Hípias maior, pergunta a um sofista o que é a beleza, ou melhor, o que é o próprio belo, o belo em si. O que Sócrates busca é o belo pelo qual as coisas belas são belas. Seu interlocutor, porém, incapaz de compreender a pergunta, responde sempre mostrando coisas belas: o belo é uma linda jovem, o belo é o ouro, o belo é uma vida feliz. O mesmo acontece em outro diálogo, o Laques, em que um general é incapaz de responder o que é a coragem, não percebe o que é que, estando em todos os atos corajosos, é o mesmo. Também no Protágoras, novamente o interlocutor é incapaz de dizer o que é a virtude, ou no Eutífrão, um sacerdote é incapaz de responder o que é a piedade. Todos os diálogos socráticos são aporéticos. Não há resposta, não chegamos ao que seja a virtude, a piedade, a beleza ou a coragem. De algum modo, ainda que possam trazer consigo uma doutrina não de Sócrates, mas platônica, os diálogos socráticos preservam um pouco da imagem histórica de Sócrates, um homem sempre interrogando, sempre mostrando aos interlocutores que estes no fundo não sabem. Um homem que também não sabe, mas sabe que não sabe, e por isso pergunta.

Qual é então sua filosofia? O que é que prega o Sócrates dos diálogos de juventude de Platão? Não se trata de uma filosofia positiva, mas de uma exigência. Sócrates exige que seu interlocutor encontre um certo caráter genérico capaz de explicar a multiplicidade de exemplares. É preciso encontrar, por exemplo, o caráter genérico comum a todos os atos piedosos, e mais, esse caráter genérico deve explicar por que os atos piedosos são piedosos. É preciso encontrar a própria piedade, o próprio belo, etc. Seus interlocutores têm muita dificuldade para compreendê-lo. Hípias responde-lhe que o próprio belo é uma jovem bela. Não consegue perceber que o próprio belo é aquilo que está presente numa jovem bela e que a faz ser bela. Em resumo, é dupla a exigência socrática: encontrar uma certa unidade na multiplicidade (o Belo presente nos muitos belos) e encontrar nessa unidade a causa da multiplicidade (o Belo como causa dos belos).

Não é pouco. Essa exigência socrática levará Platão a desenvolver sua teoria das Formas. Aristóteles também não a perde de vista e louva Sócrates (Metafísica, XIII, 1078 b27-30) por ter buscado a presença do universal na definição. Sem esse “próprio”, dirá Platão, sem a definição universal, dirá Aristóteles, não há possibilidade de epistéme, de ciência. Platão tentará satisfazer a exigência socrática. Mas é árdua sua tarefa, pois não pode deixar de lado as conseqüências extraídas de duas filosofias anteriores, pré-socráticas: de Heráclito e de Parmênides. Para Heráclito, o mundo está em perpétuo estado de fluxo, nunca entramos duas vezes no mesmo rio (são sempre novas águas), “somos e não somos”. Se a noção de ser em Heráclito é bastante fraca, Parmênides, ao contrário, funda o conceito de ser: é ou não é; se algo é, é. O Ser de Parmênides é eterno, uno, indivisível, imóvel. E Platão extrai algumas conseqüências destas doutrinas e terá que dar conta delas. Concorda com Heráclito: é fato que este mundo visível, sensível, está sempre mudando; não há como encontrar um certo “mesmo” em tudo isso. Por outro lado, é preciso concordar com Parmênides quando se examina determinados tipos de seres: a coragem, por exemplo, é um certo ser que jamais será não corajoso; se a coragem é, ela é sempre coragem.

Qual é o grande problema que surge do confronto entre Heráclito e Parmênides? Se Heráclito for levado às últimas conseqüências, não há possibilidade de ciência. No Teeteto, Platão expõe isso: o sofista Protágoras expressa um relativismo derivado de uma leitura extremada de Heráclito: o ser se reduz ao que aparece para alguém. Para Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas, das que são, que são, das que não são, que não são” (152 a). O que é o vento? Se, para mim, ele aparece como frio, então ele é frio para mim. O homem é a medida para si do que lhe aparece. Não há, dentro desse quadro, a possibilidade de algo em si mesmo, algo que seja ele próprio, independente de outrem. Outra conseqüência dramática da fi- losofia de Heráclito seria a impossibilidade de linguagem: se tudo está em perpétuo fluxo, as próprias coisas não possuem um ser que permaneça estável e do qual eu possa dizer algo. Platão reconhece todos esses problemas. Se o conhecimento for o conhecimento do mundo sensível, então é preciso extrair todas as conseqüências da doutrina de Heráclito: não há mais ser (pois o ser seria algo em constante mutação) e nem haveria mais como dizer o ser (pois como dizer algo que nesse instante é, mas já em seguida não é?).

Mas, do ser imutável de Parmênides, Platão extrai outras conseqüências: se há algo realmente imutável, é somente este que pode ser conhecido. Para Platão, o conhecimento deve ser algo absolutamente imutável, ou não será mais conhecimento e sim simples opinião. Mas se o mundo sensível é o mundo da mutabilidade, onde nada permanece sendo sempre o que é, não é possível mesmo haver conhecimento deste mundo. Como resolver o impasse? Não haverá algo que seja eterno, imutável, e que viabilize assim a possibilidade de conhecimento? É dentro desse quadro problemático que Platão elabora sua teoria das Formas ou Idéias, apresentada principalmente em seus diálogos de maturidade: o Fédon, a República, o Banquete e o Fedro. Procurará, por meio das Formas, dar conta da possibilidade de existência de um certo ser imutável que permita um conhecimento imutável.

Se é preciso explicar por que as coisas belas são belas, a participação nas Formas é a resposta de Platão: a razão de algo ser belo é porque participa do Belo em si. Há um Belo em si, uma Forma que não é visível pelos sentidos, mas que se faz presente em cada uma das coisas belas. As coisas belas participam da Forma do Belo. Esta é a verdadeira causa da beleza sensível. Platão concede assim o máximo de ser, de “essência” (ousía, em grego) às coisas que são em si mesmas, àquilo que existe em si. Não são coisas deste mundo visível, mas são seres aos quais é possível aceder pela via do pensamento. Estes seres em si, as Formas ou Idéias, são a causa da existência das coisas visíveis. Com isso, satisfaz a dupla exigência socrática: a Forma é aquela tão procurada unidade na multidão de exemplares e é também a causa de existência dos múltiplos seres. As Formas (do Belo, do Bom, do Grande, etc.) explicam por que os milhares de entes do mundo sensível podem ser belos, bons, grandes, etc. A Forma em si é eterna, não está sujeita ao perpétuo fluxo das coisas visíveis. O Belo é e será sempre belo. E assim, Platão resolve o problema derivado da filosofia de Heráclito: as coisas belas podem deixar de ser belas; há até mesmo uma relatividade entre os conceitos de belo, já que algo pode ser belo para mim e não para outro. Mas o Belo em si é absoluto e eterno. As coisas belas participam dele e é só nessa medida que são belas. Por isso, não pode haver ciência das coisas sujeitas ao perpétuo fluxo; ora elas são, ora não são. Não há como conhecer o ser próprio das coisas sensíveis. Só as Formas, por serem imutáveis, podem ser conhecidas.

Como conceber as Formas? Somente pela via do pensamento, já que os órgãos dos sentidos são falíveis e, portanto, fonte de erro. É preciso, diz Platão, afastar-se do corpo para que se possa contemplar a imutabilidade das Formas. Nosso filósofo cria uma marcante dualidade entre corpo e alma que vingará na filosofia ocidental e influenciará fortemente o cristianismo. O corpo é inferior em ser à alma, que em muitos momentos é identificada ao próprio homem. Quem somos? A alma. E é pela alma que acedemos às realidades superiores. “Nesta vida, o que faz com que cada um de nós seja o que é nada mais é do que a alma, enquanto o corpo é para nós a imagem concomitante. Está certo quem diz que o corpo sem vida não é senão a imagem do morto e que o eu real de cada um de nós, que chamamos de alma imortal parte para prestar contas perante outros deuses, uma perspectiva a ser encarada com coragem pelos bons, mas com supremo terror pelos maus”. (Leis, XII, 959 b).

Como somos a alma, e não o corpo, a morte é bem-vinda, já que desvencilhados do corpo, estaremos em melhores condições de acesso às Formas, ao que é em si. Estes são os ensinamentos de Sócrates – agora um Sócrates absolutamente platônico, não mais histórico –no Fédon. Ali, em seu último dia de vida, na prisão, ensina os amigos presentes a não temer a morte; aspirar à contemplação de realidades mais elevadas é um desejo natural de quem tem um temperamento filosófico. Tampouco devem prantear-lhe o corpo morto, pois ele mesmo, Sócrates, não estará mais ali, mas em outro lugar.




Como somos a alma, e não o corpo, a morte é bem vinda, já que desvencilhados do corpo, estaremos em melhores condições de acesso às Formas, ao que é em si. Estes são os ensinamentos de Sócrates





Aristóteles apontará uma série de problemas e mesmo erros na doutrina platônica. Mas não seríamos justos com Platão se não mencionássemos que o próprio filósofo já havia detectado algumas aporias em sua filosofia, que foram apresentadas no diálogo Parmênides. Vamos, porém, saltar esse passo e observar o que Aristóteles tem contra Platão. Para Aristóteles, uma boa explicação deve ser simples, econômica. Ora, a teoria das Formas complica o conhecimento das causas. Para explicar “estes seres aqui”, este mundo que nos cerca, Platão teria recorrido a entidades supra-sensíveis. A diferença básica entre os dois filósofos reside no ponto de vista de cada um em relação à “essência”, à ousía. Segundo Platão, as coisas deste mundo sensível têm pouco ser, são inferiores na escala hierárquica do ser. Ora, para Aristóteles, as coisas deste mundo aqui é que têm de fato ser. Ele inverte a ordem proposta por Platão. Se antes as coisas sensíveis tinham ser porque participavam do ser mais elevado das Formas, agora, com Aristóteles, o ser mais elevado encontra-se nas próprias coisas.

Na sua Metafísica, I, 9, Aristóteles apresenta diversos argumentos contra a doutrina das Formas. Diz ele: as Formas “chegam a eliminar justamente os princípios cuja existência nos importa mais do que a própria existência das Idéias”. O que importa, então, é “isto aqui”. São “estas coisas daqui” que não podem ter seu ser suprimido, como quer a teoria das Formas. Além disso, se as Formas são a própria essência das coisas, como é possível que existam separadas das coisas? Têm que estar nas próprias coisas. Com as Formas platônicas, estaria eliminada toda possibilidade de conhecimento das coisas sensíveis, pois o que se poderia conhecer não seriam as coisas mesmas, mas as Formas separadas, transcendentes à própria coisa. A doutrina de Platão teria ainda falhado ao não dar conta dos diversos modos com que dizemos que uma coisa é. Por isso, acabou concedendo mais ser a algo que teria menos ser. Por exemplo, se dissermos “Maria é bela”, devemos notar que o ser “Maria” é mais ser do que “bela”. É Maria que existe antes de ser bela. Já o ser “bela” é um certo tipo de ser que deve sua existência a Maria. Bela é um predicado de Maria, essa sim a verdadeira ousía, a “substância”, para usar um termo consagrado na terminologia aristotélica.

É grande a lista de problemas observados por Aristóteles, mas a ruptura entre os dois filósofos é de base. O ser que importa é o ser das coisas sensíveis, e são estas coisas que, na hierarquia dos seres, são mais elevadas. Mas, de alguma maneira, Aristóteles concorda com Platão. O conhecimento deve ser de conteúdos imutáveis. Como, então, conhecer o mundo sensível, que é o reino do mutável? Será preciso dar alguma estabilidade para o mundo sensível para que este possa, afinal, ser conhecido. Se for possível encontrar um certo ser estável nas coisas, será possível haver ciência dos corpos sensíveis.

O conceito de epistéme, ciência, é fundado por Platão. Contudo, do ponto de vista do platonismo, se as coisas sensíveis estão em perpétuo estado de fluxo, a ciência deve vir de algo que não seja o sensível. Por isso, para fundamentar a possibilidade da epistéme, Platão elabora o conceito de Forma, com o qual seria possível apreender-se as coisas que são, de maneira imutável e necessária. Há seres não sensíveis, acredita Platão, que podem ser objeto de conhecimento num sentido rigoroso. Assim, responde à exigência socrática acerca de “o que é”, acerca da universalidade.

Aristóteles herda de Platão esse anseio por satisfazer a noção de epistéme, que deve tratar sempre de conteúdos imutáveis de conhecimento. Afasta-se, porém, do mestre ao rejeitar a existência de idéias ou formas apartadas da matéria, existentes por si. Confere ousía às próprias coisas, não às formas platônicas. É impossível aceitar que as formas tenham existência separada da coisa, se elas são a ousía das coisas, entende Aristóteles. Ousía aplica-se às coisas sensíveis, ao domínio da natureza.

Mas Aristóteles concorda com a existência dos universais – razão, aliás, do elogio que faz a Sócrates, que teria se empenhado pela busca desses universais. Esses, porém, não existem por si, de modo imaterial, mas encontram-se nas coisas, e tomamos conhecimento deles através do intelecto, por um processo de abstração. Desse modo, Aristóteles considera que as coisas sensíveis são compostas de matéria e forma. As formas aristotélicas, ainda que possam ser abstraídas da matéria e pensadas à parte, só existem de fato quando unidas à matéria. Matéria e forma estão indissoluvelmente ligadas na constituição da substância e só podem ser separadas no pensamento. Ao contrário de Platão, Aristóteles não considera possível “reduzir todas as coisas às Formas e eliminar a matéria” (Met. VII, 1036 b23), pois “tudo que seja algo determinado possui matéria” (Met. VII, 11, 1037 a2). Entretanto, Aristóteles exclui a matéria da definição de substância, pois a matéria é algo indeterminado. Somente a forma pode ser definida e é por meio dela que será possível a ciência. Assim, a ciência aristotélica é dos objetos sensíveis, mas daquilo que neles é eterno, imutável: a forma. A epistéme deve capturar predicados universais, eternos e imutáveis.




Aristóteles satisfaz a exigência socrática de buscar o universal nos vários particulares – coisa que Platão, de alguma maneira, também já havia conseguido





Há, pois, para Aristóteles, formas universais existentes nas coisas. Com o pensamento fazemos generalizações e apreendemos algo universal nos vários objetos corporais. As substâncias físicas são sempre individuais, mas o pensamento é capaz, por um processo de abstração, de apreender o universal nelas, apreender sua definição. Há várias árvores, cada qual diferente das outras, mas a forma “árvore” pode ser apreendida a partir de uma abstração e com isso pode ser dada uma definição de árvore, pode-se estabelecer “o que é” árvore. A forma “árvore” não é algo exterior, transcendente às várias árvores da natureza, mas é imanente a cada árvore e causa de ser de cada uma delas.

A ciência deve, então, procurar reconhecer a “qüididade” (“o que é”) e a definição de todos os seres, investigar o que faz com que “um isto” seja isto e não aquilo. Deste modo, finalmente, será possível responder à pergunta “o que é” em termos particulares, mas, ao mesmo tempo, dando uma resposta universal, da qual seja possível haver ciência. Assim, Aristóteles satisfaz a exigência socrática de buscar o universal nos vários particulares – coisa que Platão, de alguma maneira, também já havia conseguido –, mas vai além e consegue fundamentar a ciência das coisas sensíveis, a ciência da natureza.



Publicação da Revista Ciência e Vida: Filosofia, ed. 18/2008


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Fr. Tito, OP - Um Relato

Relato da tortura de Frei Tito

Este é o depoimento de um preso político, frei Tito de Alencar Lima, 24 anos. Dominicano. (redigido por ele mesmo na prisão). Este depoimento escrito em fevereiro de 1970 saiu clandestinamente da prisão e foi publicado, entre outros, pelas revistas Look e Europeo.



Fui levado do presídio Tiradentes para a "Operação Bandeirantes", OB (Polícia do Exército), no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: "Você agora vai conhecer a sucursal do inferno". Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres.

Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª auditoria de guerra da 2ª região militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz auditor dr Nelson Guimarães. Soube posteriormente que este juiz autorizara minha ida para a OB sob “garantias de integridade física”.

Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o Congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram me para o “pau-de-arara”. Dependurado nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me "telefones" (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isto durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do "pau-de-arara". O interrogatório reiniciou. As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até às 20 horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça pesada e dolorida. Um soldado, carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo.

Na quarta-feira fui acordado às 8 h. Subi para a sala de interrogatórios onde a equipe do capitão Homero esperava-me. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, eu recebia cutiladas na cabeça, nos braços e no peito. Nesse ritmo prosseguiram até o início da noite, quando serviram a primeira refeição naquelas 48 horas: arroz, feijão e um pedaço de carne. Um preso, na cela ao lado da minha, ofereceu-me copo, água e cobertor. Fui dormir com a advertência do capitão Homero de que no dia seguinte enfrentaria a “equipe da pesada”.

Na quinta-feira três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas. "Vai ter que falar senão só sai morto daqui", gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na "cadeira do dragão" (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao "pau-de-arara". Mais choques, pauladas no peito e nas pernas a cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse "antes de morrer". Não chegaram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatória. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isto durou até às 10 h quando chegou o capitão Albernaz.

"Nosso assunto agora é especial", disse o capitão Albernaz, ligou os fios em meus membros. "Quando venho para a OB - disse - deixo o coração em casa. Tenho verdadeiro pavor a padre e para matar terrorista nada me impede... Guerra é guerra, ou se mata ou se morre. Você deve conhecer fulano e sicrano (citou os nomes de dois presos políticos que foram barbaramente torturados por ele), darei a você o mesmo tratamento que dei a eles: choques o dia todo. Todo "não" que você disser, maior a descarga elétrica que vai receber". Eram três militares na sala. Um deles gritou: "Quero nomes e aparelhos (endereços de pessoas)". Quando respondi: "não sei" recebi uma descarga elétrica tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas. O capitão Albernaz queria que eu dissesse onde estava o Frei Ratton. Como não soubesse, levei choques durante quarenta minutos.

Queria os nomes de outros padres de São Paulo, Rio e Belo Horizonte "metidos na subversão". Partiu para a ofensa moral: "Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês? Quem são os outros padres terroristas?". Declarou que o interrogatório dos dominicanos feito pele DEOPS tinha sido "a toque de caixa" e que todos os religiosos presos iriam à OB prestar novos depoimentos. Receberiam também o mesmo "tratamento". Disse que a "Igreja é corrupta, pratica agiotagem, o Vaticano é dono das maiores empresas do mundo". Diante de minhas negativas, aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. À certa altura, o capitão Albernaz mandou que eu abrisse a boca "para receber a hóstia sagrada". Introduziu um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritaram difamações contra a Igreja, berraram que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela onde fiquei estirado no chão.

Às 18 horas serviram jantar, mas não consegui comer. Minha boca era uma ferida só. Pouco depois levaram-me para uma "explicação". Encontrei a mesma equipe do capitão Albernaz. Voltaram às mesmas perguntas. Repetiram as difamações. Disse que, em vista de minha resistência à tortura, concluíram que eu era um guerrilheiro e devia estar escondendo minha participação em assaltos a bancos. O "interrogatório" reiniciou para que eu confessasse os assaltos: choques, pontapés nos órgãos genitais e no estomago palmatórias, pontas de cigarro no meu corpo. Durante cinco horas apanhei como um cachorro. No fim, fizeram-me passar pelo "corredor polonês". Avisaram que aquilo era a estréia do que iria ocorrer com os outros dominicanos. Quiseram me deixar dependurado toda a noite no "pau-de-arara". Mas o capitão Albernaz objetou: "não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis". "Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia".

Na cela eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior do que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros padres sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria aguentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me.

Na cela cheia de lixo, encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento. O preso ao lado pressentiu minha decisão e pediu que eu me acalmasse. Havia sofrido mais do que eu (teve os testículos esmagados) e não chegara ao desespero. Mas no meu caso, tratava-se de impedir que outros viessem a ser torturados e de denunciar à opinião pública e à Igreja o que se passa nos cárceres brasileiros. Só com o sacrifício de minha vida isto seria possível, pensei. Como havia um Novo Testamento na cela, li a Paixão segundo São Mateus. O Pai havia exigido o sacrifício do Filho como prova de amor aos homens. Desmaiei envolto em dor e febre.

Na sexta-feira fui acordado por um policial. Havia ao meu lado um novo preso: um rapaz português que chorava pelas torturas sofridas durante a madrugada. O policial advertiu-me: "o senhor tem hoje e amanhã para decidir falar. Senão a turma da pesada repete o mesmo pau. Já perderam a paciência e estão dispostos a matá-lo aos pouquinhos". Voltei aos meus pensamentos da noite anterior. Nos pulsos, eu havia marcado o lugar dos cortes. Continuei amolando a lata. Ao meio-dia tiraram-me para fazer a barba. Disseram que eu iria para a penitenciária. Raspei mal a barba, voltei à cela. Passou um soldado. Pedi que me emprestasse a "gillete" para terminar a barba. O português dormia. Tomei a gillete. Enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa. Mais tarde recobrei os sentidos num leito do pronto-socorro do Hospital das Clínicas. No mesmo dia transferiram-me para um leito do Hospital Militar. O Exército temia a repercussão, não avisaram a ninguém do que ocorrera comigo. No corredor do Hospital Militar, o capitão Maurício dizia desesperado aos médicos: "Doutor, ele não pode morrer de jeito nenhum. Temos que fazer tudo, senão estamos perdidos". No meu quarto a OB deixou seis soldados de guarda.

No sábado teve início a tortura psicológica. Diziam: "A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista. A Igreja vai expulsá-lo". Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse.

Na segunda noite recebi a visita do juiz auditor acompanhado de um padre do Convento e um bispo auxiliar de São Paulo. Haviam sido avisados pelos presos políticos do presídio Tiradentes. Um médico do hospital examinou-me à frente deles mostrando os hematomas e cicatrizes, os pontos recebidos no hospital das Clínicas e as marcas de tortura. O juiz declarou que aquilo era "uma estupidez" e que iria apurar responsabilidades. Pedi a ele garantias de vida e que eu não voltaria à OB, o que prometeu.

De fato fui bem tratado pelos militares do Hospital Militar, exceto os da OB que montavam guarda em meu quarto. As irmãs vicentinas deram-me toda a assistência necessária Mas não se cumpriu a promessa do juiz. Na sexta-feira, dia 27, fui levado de manhã para a OB. Fiquei numa cela até o fim da tarde sem comer. Sentia-me tonto e fraco, pois havia perdido muito sangue e os ferimentos começavam a cicatrizar-se. À noite entregaram-me de volta ao Presídio Tiradentes.

É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde.

A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra essa situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo

"Não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio. Fomos maltratados desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sairmos com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte: deu-se isso para que saibamos pôr a nossa confiança, não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos" (2Cor, 8-9).

Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste notícia de mais um morto pelas torturas.


Frei Tito de Alencar Lima, OP
Fevereiro de 1970



Extraído de http://www.adital.com.br/freitito/por/pedras.html , em 03/11/09, em 11:00 h


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Marco Aurélio: Fonte para Pesquisa

Disponibilizo a todos os dois artigos que utilizei para, entre outras fontes, compor o artigo Marcus Aurelius: Homem, Filósofo e Guerreiro. Trata-se da edição 451 da revista Historia Y Vida. Apesar do material estar em espanhol, recomendo a todos em razão das informações contidas.

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Marco Aurélio: Aula Virtual

Aula sobre o Imperador-Filósofo Marco Aurélio, em 5 vídeos. Em inglês, sem legenda.


















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Breno Bastos é Entrevistado Pela Revista Novos Rumos

Amigos e caros leitores do Portal Veritas.

Anuncio a todos que, possivelmente no próximo mês, será publicada uma entrevista minha na Revista Novos Rumos. Trata-se de um periódico de grande circulação, especialmente conhecida no Rio Grande do Sul, voltada para profissionais que buscam melhor qualidade de vida para a população.

A jornalista Sandra Veroneze conduziu a entrevista, estabelecendo articulações entre filosofia e prática de vida, assim como sua eficácia na saúde mental e a constante busca humana por felicidade.

Desde já agradeço ao Novos Rumos pela oportunidade, na esperança da contribuição para a popularização da filosofia e no incentivo de novos caminhos investigativos no mundo do conhecimento.

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Epicteto: diáiresis e proáiresis

Epicteto nasceu em Hierápolis, na Frigia, entre 50 e 60 d.C. Pouco depois de 70 d.C., quando ainda era escravo, comeqou a frequentar as aulas de Musonio, que Ihe revelaram sua propria vocação para a filosofia. Expulso de Roma por Domiciano, juntamente com outros filosofos (em 88/89 ou em 92/93 d.C.), deixou a Italia, retirando-se para a cidade de Nicópolis, no Épiro, e fundou uma escola que alcanqou grande sucesso, atraindo ouvintes de todas as partes. Não se conhece a data de sua morte (alguns pensam em 138 d.C.). Querendo aterse ao modelo socratico do filosofar, Epicteto não escreveu nada. Felizmente, suas aulas eram frequentadas pelo historiador Flavio Arriano, que (talvez na segunda década do sec. I d.C.) teve a feliz idéia de por seus ensinamentos por escrito. Nasceram assim as Diatribes (Discursos ou Dissertações) em oito livros, dos quais quatro chegaram até nós. Arriano também compilou um Manual (Encheiridion), extraindo das Diatribes as maximas mais significativas.

O grande principio da filosofia de Epicteto consiste na divisão das coisas em duas classes:


a) aquelas que estão em nosso poder (ou seja, opiniões, desejos, impulsos e repulsões);

b) aquelas que não estão em nosso poder (ou seja, todas as coisas que não são atividades nossas, como, por exemplo, corpo, parentes, haveres, reputação e semelhantes).


O bem e o mal residem exclusivamente na classe das coisas que estãoem nosso poder, precisamente porque estas dependem de nossa vontade, e não na outra classe, porque as coisas que não estão em nosso poder não dependem de nossa vontade.

Nesse sentido, não ha mais lugar para compromissos com os "indiferentes" e com as "coisas intermediárias". A escolha, portanto, é radical, peremptoria e definitiva: não se pode buscar as duas classes de coisas a0 mesmo tempo, porque umas comportam a perda das outras e vice-versa. Todas as dificuldades da vida e os erros que se cometem derivam de não se levar em conta essa distinção fundamental. Quem escolhe a segunda classe de coisas, isto é, a vida fisica, os bens, o corpo e seus prazeres, não so vai ao encontro de desilusões e contrariedades como também perde até a liberdade, tornando- se escravo das coisas e dos homens que constituem ou concedem os bens ou vantagens materiais. Quem, ao contriário, rejeita em bloco as coisas que não dependem de nos e se concentra nas coisas que dependem de nos torna-se verdadeiramente livre, porque confronta-se com atividades que são nossas, vive a vida que quer e, consequentemente, alcanla a satisfação espiritual, a paz da alma.

Ao invés de por como fundamento moral um critério abstrato de verdade, Epicteto colocou a prohairesis. A prohhiresis (pré-escolha, pré-decisão) é a decisio e a escolha de fundo, que o homem faz de uma vez para sempre e com a qual, portanto, determina o diapasão do seu ser moral, e disso dependera tudo o que fará e como o fará.

Está claro que, para Epicteto, a autêntica prohairesis coincide com a aceitação do seu grande principio, que distingue as coisas que estão em nosso poder das coisas que não estão em nosso poder, estabelecendo que o bem esta exclusivamente nas primeiras. Fica claro que, uma vez realizada essa "escolha de fundo", as escolhas particulares e as ações singulares brotarão como consequência dessa escolha. Assim, a "escolha de fundo" constitui a substancia de nosso ser moral. Consequentemente, Epicteto pode muito bem afirmar: "Não és carne nem pêlo, mas sim escolha moral: se esta for bela, seras belo."

Para o leitor moderno, a "escolha de fundo" poderia parecer um ato de vontade. Se assim fosse, a ética de Epicteto seria urna ética voluntarista. Mas não é assim: a prohairesis é ato de razão, juizo cognoscitivo. A "ciência" socrática continua sendo o fundamento da prohairesis.

Epicteto não rejeita a concepção imanentista própria da Estoa, mas injeta-lhe fortissima carga espiritual e religiosa. Desse modo, embora não levando a urna superação do panteismo materialista, os fermentos que ele introduz levam a uma posição que se encontra no limite da ruptura, atingindo a doutrina da velha Estoa em varios pontos.

Deus é inteligincia, ciência, bem. Deus e providência, que não cuida somente das coisas em geral, mas também de cada um de nós em particular. Obedecer ao logos e fazer o bem, portanto, significa obedecer a Deus e fazer sua vontade. Servir a Deus quer dizer, também, louvar a Deus. A liberdade coincide com a submissão à "vontade de Deus".

O tema do parentesco do homem com Deus, que ja era tema da antiga Estoa, também assume conotaqdes fortemente espiritualistas e quase cristis em Epicteto.

Infelizmente, como ja vimos verificarse com Sineca, Epicteto tambkm nio soube dar adequado fundamento ontologico as novas instincias que propunha. Tudo o que Epicteto nos diz sobre o homem (sobre a "escolha de fundo") estaria teoreticamente bem mais correto se colocado no imbito de urna metafisica dualista de tip0 plat6nico do que posto no campo da concepqiio monistico-materialista da Estoa. Assim, tudo o que ele diz de Deus implicaria em aquisiqdes metafisicas ate mesmo mais maduras do que as alcanqadas por Plat50 e Arist6teles a esse respeito.


REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Filosofia Pagã Antiga, v. 1. São Paulo: Paulus, 2003. p. 367-368



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Maximiano

Maximianus, Imperador do Ocidente - 285/286-305 d.C.

Como outros membros da Tetrarquia, Maximiano foi treinado no exército de Aureliano e Probo. Assim que assumiu a posição de Augusto, Diocleciano nomeou césar seu antigo camarada de armas e enviou-o para a Gália com a missão de subjugar os insurgentes. No ano 286, Maximiano tornou-se augusto, ao lado de Diocleciano, e continuou a defender a fronteira do Reno. Dois panegíricos, conservados ainda hoje, mostram que estava intimamente associado a Diocleciano.


Em 293, Constâncio I e Galério foram indicados césares. Maximiano mudou-se para o Mediterrâneo ocidental, deixando o norte para Constâncio. Nos anos 296-298, conteve rebeliões na Espanha e na África, e fez uma importante visita a Roma. Voltou a Roma em 304, juntamente com Diocleciano, para comemorar vinte anos de governo conjunto. Desde o triunfo de Aureliano, cinquenta anos antes, a cidade não via comemoração igual: construíram-se para os festejos as Termas de Diocleciano e um monumento magnífico ao lado do Senado. Em maio do ano seguinte, Diocleciano e Maximiano abdicaram. Os eventos que se seguiram mostraram que Maximiano não via com bons olhos seu afastamento do poder.

Em 306, o filho de Maximiano, Maxêncio, usurpou a púrpura em Roma, e pediu o apoio do pai para sua reivindicação. Maximiano firmou uma aliança com Constantino, na Gália, dando-lhe em casamento sua filha Fausta. Depois do fracasso da conferência convocada por Galério, em 308, para resolver a questão do poder imperial, Maximiano voltou para a Gália e proclamou-se augusto. Constantino, após uma rápida marcha do Reno até Marselha, derrotou seu sogro. Foi concedido a Maximiano o direito de escolher como desejava se suicidar, e ele escolheu o enforcamento.


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Lipsius: Neo-Estoicismo Cristão

O erudito flamengo Justus Lipsius (1547-1606) não foi um filósofo no sentido estrito do termo. 1 Foi, antes, um brilhante filólogo clássico, que proficuamente escreveu também sobre a história antiga, a cristandade e as questões políticas e religiosas de seus conturbados tempos. O que o torna importante para os propósitos deste capítulo é seu conhecimento sem precedentes de muitas fontes antigas do estoicismo e da influência cultural por este exercida entre 1600 e 1750, aproximadamente. Em três tratados, De Constantia, Manuductio ad Stoicam Philosophiam e Physiologia Stoicorum, Lipsius produziu caracterizações do estoicismo baseadas em uma seleção vasta de citações gregas e latinas. 2 Essas obras, sobretudo a primeira, eram extremamente populares nos séculos XVII e XVIII. Lipsius fia-se intensamente em Sêneca, seu autor favorito, mas seus livros incluem muito do material grego sobre o qual todo estudioso moderno do estoicismo deve-se debruçar, e ele às vezes sopesa o valor dos diferentes testemunhos de um modo que antecipa a erudição moderna. Quem quer que estivesse seriamente interessado no estoicismo naquela época deveria ler Lipsius: suas caracterizações da escola eram as mais completas à disposição.

Infelizmente, os trabalhos de Lipsius foram um desastre para a interpretação do estoicismo como filosofia sistemática. Isso se deu por três motivos principais. Em primeiro lugar, apesar de seu domínio extraordinário de numerosas fontes antigas, ele não conhecia ou não utilizava as provas de Galeno, de Sexto Empírico e dos comentadores aristotélicos ou de Marco Aurélio, e até suas citações de Cícero eram escassas se comparadas às extraídas de Sêneca e Epicteto. Assim, ele deixa passar despercebido o material mais técnico sobre a cosmologia estóica. Em segundo lugar, ele tende a confirmar ou corregir as fontes por ele citadas com referências adicionais a autores platônicos e cristãos, diluindo as fronteiras ou distorcendo as doutrinas originais estóicas. Em terceiro lugar - e esse é o aspecto mais lamentável - ele toma a cristandade como critério para aceder ao significado do estoicismo.

O que Spinoza, na geração seguinte, teria achado particularmente apropriado no estoicismo era precisamente o alvo de Lipsius - a imanência de Deus a todas as coisas, a unidade entre Deus e matéria, e o determinismo universal. Lipsius tenta alinhar as declarações estóicas acerca dessas quetões a sua compreensão da teologia cristã. O resultado é que o estoicismo perde o caráter distintivo e torna-se uma antecipação largamente branda do teísmo cristão.

Lipsius sabe que, para o estoicismo, Deus ou a Natureza, bem como a matéria, são princípios eternos e co-extensivos; que, juntos, esses princípios constituem o organismo vivente que é o universo; e que Deus ou a Natureza, sob as descrições de fogo, espírito ígneo, razão ou mente, funciona como o agente causal de todas as coisas. Em vez de conceder ao termo Natureza um sentido independente, Lipsius convida seus leitores a traduzi-lo como Deus: Naturam dixi, intellego Deum ("disse 'Natureza', (mas) entendo 'Deus'", Fís. I, 2). O contraste com o usoreverso em Spinoza, Deus sive Natura ("Deus, ou a Natureza"), é notável. Lipsius propõe objeções às idéias de que a matéria é coeva a Deus e de que Deus não poderia existir sem a matéria (extensão). "Deus", diz ele, "está contido nas coisas, mas não está instilado nelas" (Fís. I, 8): Deus é verdadeira e primariamente mente, apenas secundariamente é o mundo (ibid.). Lipsius pode encontrar algum apoio estóico para essa interpretação, mas o que ele busca, e o que ele quer encontrar, como o sentido pretendido pelos estóicos revela quão longe ele está de tentar compreendê-lo em seus próprios termos.

Como cristão que é, Lipsius não tolera o panteísmo, o materialismo ou a sugestão de que Deus poderia conter alguma coisa má tal como humanamente construída ou de que Ele poderia apresentar-se plenamente à mente humana. Onde quer que o possa, Lipsius procura demover os estóicos do endosso literal de tais reivindicações. Ele louva os estóicos por terem uma concepção vitalista da natureza, sendo distinta daqueles (os epicuristas?) que a fazem bruta et sine sensu ("bruta e sem razão, Fís. 1.5). Contudo, ele guarda-se de discutir Deus e a matériajuntamente como a Natureza. Deveríamos construir o fogo divino estóico, diz ele, como a Natureza por excelência, acima da matéria, e deveríamos elucidá-lo com o auxílio das referências bíblicas às manifestações de Deus no fogo. Quando os estóicos dizem que Deus está nas coisas, eles querem dizer, como ensina a Escritura, que "temos nosso ser em Deus" (Fís. I 9).

Com o auxílio do platonismo, como elemento distinto da estrita doutrina estóica, Lipsius confere valor negativo à matéria, e trata-a como a fonte do mal (Fís. I, 14). Não era essa a doutrina estóica ortodoxa, mas ela permite a Lipsius aliviar os estóicos dos problemas que sua teodicéia enfrentava em suas tentativas de reconciliar a providência e o determinismo estrito. Em um viés semelhante, ele considera que as declarações estóicas sobre a voluntas ("vontade") humana implicam a vontade "livre", sendo alinhadas, desse modo, à cristandade (Fís. I 14).

As observações que acabo de fazer com grande brevidade são questões complexas. As fontes em que Lipsius primariamente se fia não estão livres de ambiguidades. Não quero passar a impressão de que ele teria tido alguma razão forte, dados seu tempo e seu lugar, para discutir os estóicos de maneira mais histórica e crítica. Em seu trabalho mais popular, De Constantia, ele enfocava não os princípios básicos do estoicismo, mas a utilidade da filosofia como meio de fortalecer a mente contra a ansiedade e os problemas exteriores.

Pautando-se demasiadamente em Sêneca, ele se imagina, ao fugir dos problemas em Flandres, confrontando com um Longius, que o refreia com as seguintes palavras: "o de que precisamos fugir, Lipsius, não é nosso país, mas são nossos sentimentos: precisamos fortalecer a mente apara nos darmos a tranquilidade e a paz em meio ao tumulto e à guerra" (Const.I). E Longius segue instruindo Lipsius quanto a serem os principais inimigos da resolução mental "os falsos bens e males" (Const. 7). Com relação aos externos, Lipsius deveria indagar se ele realmente perdeu alguma coisa. Com referência à providência e ao determinismo estóico, aconselha-se o reconheicmento de que os fenômenos naturais são manipulados por uma "lei eterna", que é divina (Const. 13-20). A constribuição principal desse tratado está na necessidade de cultivar "uma perseverança voluntária e isenta de ressaibos a todas as contingências humanas" (Const. 3). O instrumento para esse cultivo é "uma mente boa" ou a racionalidade que derivamos de Deus.

Lipsius fez objeções numerosas a seu mentor, com base na tese de que as prescrições que lhe são oferecidas não são consistentes com a natureza huama, e Longius se opõe a elas (Const. II). A obra inclui algumas idéias originais, tais como a alegação de que, dentre os valores falsos, os públicos são mais nocivos que os privados porque o louvor equivocado ao patriotismo e à piedade exerce o efeito nocivo de doutrinar os ouvintes (Const. 7). Longius persuasivamente argumenta que á um alto grau de simulação quando as pessoas se afligem com as atribulações públicas: isso não aflige perdas reais à maioria, mas eles são atingidos por elas por carecerem da resolução mental necessária para permanecer em desprendimento perfeito.

O De Constantia de Lipsius é uma produção mais criativa que seus escritos teóricos sobre o estoicismo, que envolvem exegese pequena. Dada a época turbulenta em que foi escrito, assolada por disputas e perseguições religiosas, o apelo contemporâneo do livro é plenamente compreensível. É também, penso eu, mais autenticamente estóico que seus outros livros, especialmente na ênfase à mente e à interioridade como o úncio sítio da bondade autêntica. No entanto, em paralelo a sua dependência intensa em relação a Sêneca, a moralização do De Constantia e sua falta de argumentação rigorosa provavelmente só faziam irritar filósofos do calibre de Spinoza, Locke ou Hume. 3 Infelizmente, de novo, a imagem geral que o mundo moderno faz do estoicismo se deve, em grande parte, do foco estreito de Lipsius na aceitação sem ressentiemntos do destino.



Notas:

1. Para a vida de Lipsius e um quadro geral de suas obras, ver Saunders (1955). É um livro útil, mas pouco crítico em relação a Lipsius, e muito desatualizado na discurssão do estoicismo antigo. Existe um bom estudo sobre Lipsius em francês por Lagrée (1944).

2. Cito essas obras a partir das seguintes edições, disponíveis na Bancroft Library, University of Califórnia, Berkeley: De Constantia (Leiden, 1584); Manuductio e Physiologia Stoicorum (Antwerp, 1610).

3. Diferentemente de Dilthey (1977), acho improvável que a afinidade de Spinoza com o estoicismo tenha sido mediada por sua leitura de Lipsius.


LONG, A. A. O Estoicismo na Tradição Filosófica: Spinoza, Lipsius, Butler. In__: INWOOD, Brad, org. Os Estóicos. São Paulo: Odysseus Editora, 2006. p. 418-422


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